Museus

Museu Sem Paredes

Museu Sem Paredes

Museu Sem Paredes

DiMoDA 3.0, 2018. Obra de Paul Hertz (Fools Paradise).

Um Museu de Arte do Espírito Santo qualquer.

Entrega de peças do acervo do Museu das Remoções ao Museu Histórico Nacional (© acervo Museu das Remoções).

Mapeamento fotogramétrico das ânforas romanas na sala de Cultura Mediterrânea do Museu Nacional, após o incêndio. As fotos foram obtidas por drone porque o chão estava coberto por fragmentos de artefatos da coleção, tornando impossível o acesso.

Exposição Dja Guata Porã, Museu de Arte do Rio, 2017-8.

sem título (Nair Vervloet, óleo sobre tela, 1952) - acessar em realidade aumentada

Torre (Heide Liebermann, 1981) - acessar em realidade aumentada

Phi Books (© Antonopoulou & Dare).

Digitalização do meteorito do Bendengó, feita em partes usando HandySCAN 3D.

Centro Cultural Banco do Brasil - Rio de Janeiro, 2011.

Em 1947, o teórico e escritor André Malraux concebeu a figura do museu imaginário para falar sobre como as capacidades da fotografia poderiam expandir o poder de atuação da instituição de arte. A imagem fotográfica, generosamente transportável e reprodutível, constituiria um meio para a coleção, o estudo, a comparação e, sobretudo, a inscrição de objetos na história da arte – um meio mais eficiente do que os próprios objetos. Dilatado pelos artifícios da reprodutibilidade técnica, o museu cresceria para dentro e para fora, passando a compreender coisas e chegar a lugares que antes lhe seriam fisicamente impossíveis.

Por trás dessa ideia está a expectativa de que o museu moderno, mais do que um lugar para armazenar preciosidades, opere como um princípio organizador. Na crítica de Douglas Crimp, o museu aparece como um dispositivo foucaultiano, destinado aprover ordem e contenção para formas culturais a partir da reprodução de discursos e regimes de mostração. Como implicado no título de algumas traduções do ensaio de Malraux – o museu sem paredes –, não há nada que impeça esse dispositivo de depreender-se do próprio edifício e seguir funcionando. De fato, no ápice do capitalismo de informação, em que os aparelhos sociais transitam para regimes difusos de controle, não é de espantar que muitos museus também precisem fazê-lo. A ligação da instituição com o seu edifício persiste quase como um vestígio metonímico.

A pandemia global acelerou essa desintegração dos museus nas redes de comunicação. Talvez o que estejamos acompanhando hoje pela internet seja o museu imaginário a todo vapor, embaralhando e reescrevendo nossos repertórios estéticos por força da pura inundação cognitiva. Instituições consolidadas, mas despreparadas para esse jogo, perdem espaço para plataformas de compartilhamento de imagens como arenas de legitimação artística e disputa de narrativas históricas. Nesse contexto, o artista Brad Troemel aponta para a emergência de um mercado de arte “pós-gosto”, que encontra seu lastro não mais no juízo dos especialistas, mas no investimento afetivo das comunidades de fãs. O museu moderno, incapaz de impor suas hierarquias aos sistemas de informação online, se deixa capturar pela pulsão populista das mídias sociais. No interesse de renovar a própria autoridade, ele cobiça o status de marca ou se camufla como cenário instagramizável.

O momento demanda que os museus se repensem. Como faz a instituição para se manter móvel e socialmente relevante diante da abundância de “conteúdo” à nossa disposição? Poderia a internet ser mobilizada na renovação das capacidades do museu para o diálogo e a produção do comum? Poderia a recém-ampliada porosidade institucional ser aproveitada na fabricação de formas mais transversais de se conectar com os públicos, manejar acervos e atuar no mundo? É possível para o museu compactuar com outras plataformas de comunicação de modo a não apenas resistir, mas colaborar no desarmamento da violência memética sobre culturas menores, dissidentes e estrangeiras? Seria o museu capaz de se constituir como um modulador de frequências, que possa desacelerar a taquicardia informacional a um nível que permita a participação significativa de outros atores humanos e não humanos em vez de atropelá-la?

Em suma, como pode o museu simultaneamente aderir à pluralidade das redes e configurar um espaço de resistência aos caprichos corporativos dos seus algoritmos?

O projeto Museu Sem Paredes busca explorar essas questões a partir da recente reabertura do Museu de Arte do Espírito Santo Dionísio del Santo, o MAES, após uma reforma que recuperou elementos da sua arquitetura original e franqueou o espaço museográfico às particularidades do entorno. Como um literal museu sem paredes, com as janelas abertas ao centro da cidade de Vitória, o MAES nos serve de inspiração para sondar os modos pelos quais a instituição de arte opera, dentro e fora do próprio edifício, como um sistema de representação e discursos.

Nesse site, o visitante vai encontrar uma pequena coleção de projetos de museu em realidade virtual, termo que aqui se refere não apenas a tecnologias de imagem imersivas, como também a tudo aquilo que persiste como possível e potente por baixo das normativas institucionais. Há, de um lado, propostas que de fato idealizam o museu por meio de espaços computacionalmente simulados, interativos e por vezes fantásticos. De outro, propostas que se atracam diretamente com formas mais convencionais e específicas da instituição, no sentido de expandir o seu escopo de atuação pública. E, no meio, uma série de audioguias, filtros de realidade aumentada e simulacros digitais que tomam o desancoramento do MAES da realidade offline como pretexto para multiplicá-lo midiaticamente.

Agregados, esses três modos de expressão da virtualidade buscam dar conta do caráter imaginário do museu como nada menos do que radical, na acepção do filósofo Cornelius Castoriadis: feito o magma de que se constituem todas as instituições sociais, e que também é o combustível que nos permite recriá-las diante da emergência de outros mundos.

Nota Curatorial

Em andamento